O caminho de Santiago 1

Enzo Amato

Santiago-1336É uma experiência de vida! Se me pedissem para descrever em pouquíssimas palavras como foi fazer o caminho de Santiago de Compostela com meu pai, essa seria minha resposta. Uma experiência de vida! E acredito que seria a resposta de muitos que conheci durante essa jornada.

As inúmeras rotas que existem na Europa e levam até Santiago de Compostela nunca são iguais, digo isso porque depende da estação do ano que você for, depende da cidade que você escolhe para passar o fim de tarde e a noite, do albergue ou hostal que você escolhe para dormir, do restaurante que você escolhe para jantar, de como você almoça, das pessoas que você conhece etc… Todas essas e muitas outras variáveis fazem o caminho ser visto e entendido de forma diferente aos olhos de cada um. E justamente por ter tantas possibilidades vou deixar apenas minha opinião, pois provavelmente até a do meu pai, que me acompanhou a cada dia, seja diferente.

Começamos dia 25/9/2012, na baixa temporada, não precisávamos ter pressa para encontrar um quarto nas cidades e a temperatura seria amena. Estávamos bem equipados e com pouca bagagem, ansiosos, mas confiantes de que havíamos nos preparado bem apesar de nunca termos caminhado por dias consecutivos.

Nos primeiros dias sentia que o cansaço físico se acumulava, mas depois da segunda semana parece que o corpo já havia se adaptado às caminhadas diárias e só bastava manter os mesmos cuidados com os pés e seguir.

Meu pai ficou resfriado na 1ª semana por termos pego muito frio no primeiro dia, ao mesmo tempo sofreu com bolhas dia após dia até o fim da 3ª semana, e mesmo assim manteve o bom humor, se encantando com a paisagem, conhecendo pessoas e se divertindo. Na única bolha que eu tive, só no nono dia de caminhada, quando achava que já estava adaptado e ficaria livre delas, um mau humor me abateu e passei a admirar mais meu pai por ter continuado a curtir tudo à sua volta enquanto eu me importava com a bolha e esquecia todo o resto.

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Hoje era de salame e queijo de ovelha. Dá pra imaginar o silêncio do lugar? O único barulho vinha das folhas das árvores quando a brisa soprava.

Almoçávamos um sanduíche. Em qualquer cidade pequena tinha um mercadinho simples que, dentre outras coisas, vendia pão e frios, e assim variávamos nosso almoço, queijos de ovelha, vaca e cabra, presunto crú, uma infinidade de salames, que se podia comprar fatiado em embalagens industrializadas ou fatiado na hora. Compotas de pimentão, atum ou aliche. Gastávamos de 2 a 3 Euros cada. Preparávamos o lanche na hora da fome em alguma paisagem bonita, ou em qualquer banco de praça. Bastava ter na bagagem talheres de plástico. Era fácil comprar frutas, mas nas primeiras semanas, pegávamos punhados e mais punhados de amoras, ainda resquício do verão, diariamente na beira do caminho. Vez ou outra alguns figos nas enormes figueiras.

No jantar comíamos muito bem nos restaurantes, o chamado “menu do peregrino”. Formado pelo prato de entrada, o prato principal e a sobremesa. Haviam 3 ou 4 opções para cada prato. Uma garrafa de vinho ou água e o pão estavam inclusos e se pagava por tudo isso entre 8 e 11 Euros por pessoa. Comemos realmente muito bem e gastamos pouco, já que dentre as opções de prato principal sempre havia peixe, carne de vaca ou porco, na maioria das vezes tanto eu como meu pai escolhíamos bacalhau, truta, merluza ou linguado, pra variar um carneiro assado também era sempre bem servido. Outros peregrinos optavam por comprar comida no mercado e fazer algo mais simples na cozinha do albergue. Nesse caso gasta-se menos ainda.

Cada região da Espanha tem sua especialidade, ou ao menos um jeito diferente de fazer determinado prato, no início, perto de Pamplona, o bacalhau era em pedaços pequenos no molho, mais pra frente já vinha em filé na chapa ou frito. As trutas também eram bem populares no início, e já perto de Santiago o polvo era imbatível. Mesmo relativamente longe do mar os peixes são muito baratos. O vinho era sempre o da região e nunca deixaram a desejar.

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Campo aberto e pueblo mais a frente.

O percurso não é muito técnico e um tênis de trilha impermeável é suficiente. As botas são maioria, mas se vê pessoas com todo tipo de calçado e no dia de subida mais difícil, onde a mão do homem não havia mexido muito no terreno e sob chuva constante, meu pai estava de meias, saco plástico e sandália nos pés, nessa mesma ordem, pois não conseguia calçar as botas por causa das bolhas. Ele caminhou de sandália por 4 dias consecutivos e me lembro que começava o dia cantando, era sinal de que estava melhorando, mas ainda não conseguia calçar as botas.

Vi muitas pessoas de idade, inclusive mais que meu pai que tem 65. Por mais que caminhar quase 800km num mês de férias pareça muito, esse trajeto é compatível com qualquer pessoa saudável e gostar de caminhar é o único requisito, as outras dificuldades são superadas e o caminho se torna uma experiência incrível para todos. Pessoas do mundo todo, mulheres sozinhas, sem medo e sem motivo para tê-los, casais de jovens e velhos, pessoas magras, gordas e muito gordas, pessoas com botas, outras de tênis, sandália e até o minimalista five fingers. Mochilas grandes e pequenas, ergonômicas e modernas ou da idade da pedra.

Os aprendizados foram muitos, estava com meu pai, estava comigo, comparava nossas reações frente às adversidades, ouvia e me inspirava com histórias do meu pai, e as de pessoas desconhecidas e sei que a minha história também inspirou alguém.

Não tive nenhuma revelação divina ou ideia mirabolante, experiências boas, como essa, me fazem acordar para aproveitar mais a vida. É uma relação e comparação intensa sobre a vida real e como a conduzimos. Posso comparar o esporte e até filmes com a vida real, mas o caminho dura muitos dias, sua mente se abre, os exemplos são diários e você expande seus horizontes. Por mais que cada um enxergue de forma diferente, acredito que esse possa ser o ponto em comum para todos.

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Catedral em Santiago de Compostela, fim da jornada!

Para escrever este texto muitas imagens e lembranças me passaram pela cabeça, e estou certo de que não consegui transmitir ou traduzir todas elas em palavras. O caminho é uma experiência de vida para todos, mas diferente para cada um. Quando eu tiver um filho, gostaria de voltar lá e proporcionar isso a ele, como meu pai fez comigo.

 

 

 

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Link do texto: http://www.midiasport.com.br/blog/2012/11/13/o-caminho-de-santiago-1/

Enzo Amato

Enzo Amato - Educador físico, personal trainer e professor de corrida e triathlon. Autor do Blog do Amato.

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