Correr a 3.500 metros de altitude é mais desafiador do que os 42 kms

Luciana Zauhy Garms

LucianaGarms_MachuPichu3Completar 42 quilômetros (kms) sempre é um desafio. No entanto, mais desafiador é fazer o percurso da maratona a 3.500 metros de altitude no Peru! Senti isso na pele ao participar da corrida “Mountain Do Vale Sagrado dos Incas”.

Cerca de 30% dos corredores inscritos tiveram algum tipo de desconforto: dor de cabeça, mal estar e dificuldade para respirar. Mas, não houve nenhum caso grave. Apesar de eu ter chegado apenas 5 dias antes da prova de 42 kms no Peru, realizada em 22 de maio passado, não tive nenhum mal estar durante todo o percurso!

A corrida “Mountain Do Vale Sagrado dos Incas” acontece nos arredores da histórica cidade de Cusco, nos Andes Peruanos. Patrimônio arqueológico e cultural, o vale  se prolonga por mais de 100 quilômetros entre Huambutio e Machu Picchu. A corrida tem as opções de distâncias de 8 kms, 20 kms e 42 kms,

O percurso da prova passa por  trilhas, bosques, asfalto e montanhas, alcançando até 3.500 metros de altitude. Sou uma corredora apaixonada pelas maratonas de montanha. Já fiz 9 maratonas e mais 2 ultra-maratonas. Todas em montanhas. É fascinante correr em contato com a natureza e conhecer lugares incríveis.

A maratona no Vale Sagrado dos Incas não podia ser diferente. Cheguei em Cusco 5 dias antes da prova e procurei fazer um treino leve por lá. Caminhei bastante nas ladeiras da cidade.

É comum ouvir a recomendação de 1 a 2 semanas para a adaptação do organismo à grande altitude, antes de alguma atividade esportiva. Quando mais alto, menor a pressão do ar e menor a concentração de oxigênio no ar quando respiramos. Nos primeiros dias, a diminuição do fluxo de oxigênio no organismo, em uma atividade mais intensa, pode causar dores de cabeça (especialmente frontal), vômitos e fadiga. Com o passar dos dias, o corpo vai se adaptando à nova altitude.

Em um prova plana, em São Paulo, por exemplo, consigo manter o ritmo médio de 5 minuto e 40 segundos por quilômetro durante a maratona. Mas, isso é bem difícil em uma altitude de 3.500 metros.

Na Mountain Do Vale Sagrado dos Incas” mantive um ritmo menor do que o habitual, com uma média de 8 minutos e 30/40 segundos por quilômetros. Nas subidas, eu alternava a corrida com caminhada rápida. Fiz a prova em 6 horas e 25 minutos. O 12 quilômetros finais valeram por uma meia maratona por conta das subidas e elevada altitude.

Durante o percurso, quando eu tentava acelerar, mesmo nas descidas, minha frequência cardíaca disparava! As pernas pareciam não responder ao comando do cérebro para aumentar a passada. Para manter minha respiração controlada, procurei seguir em um ritmo confortável.

Assim que consegui encaixar um bom ritmo, me mantive nele até o final, sem parar. Acho que esse é o segredo da prova: cada um achar seu ritmo certo! Não se trata de prova de superação de velocidade e sim para ser finalizada dentro de um tempo proposto, desafiando o corpo em uma altitude de 3.500 metros.

A variação da amplitude térmica durante o percurso do “Mountain Do Vale Sagrado dos Incas” é  outro detalhe que precisa ser planejado pelos corredores. Pela manhã, a temperatura estava em 10 graus. Foi esquentando durante a prova até chegar aos 20 graus, com sol forte entre 12 hs e 13 hs. Depois, esfriou rapidamente e começou a ventar bastante, com garoa fina! Optei por correr o tempo todo com calça e manga longa! Tirei a luva um pouco,  mas tive que colocá-la novamente por conta do frio.

A prova tinha pontos de hidratação a cada 5 quilômetros. Em dois pontos, havia bebida isotônica. Já nos quilômetros 18 e 30, frutas à vontade. É uma prova muito bem organizada. Ainda assim, sempre vou com minha mochila de hidratação com água de reserva. Para a alimentação, levei o que já estou habituada nas provas que faço,  sachês de gel de carboidrato vegano, repositores de eletrólitos e proteína vegetal.

Só posso dizer que tudo valeu a pena porque o lugar é mágico!

Luciana Zauhy Garms

Luciana Zauhy Garms - médica ortopedista, especializada em Traumatologia Esportiva e Medicina Esportiva. Mais informações: http://www.lumedicinaesportiva.com.br

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